As provas da delação da J&F de repasses de propinas a Eduardo Cunha

Delatores entregaram à Lava Jato planilha com total de repasses, em 2014, a ex-presidente da Câmara e ao vice-governador de Minas, Antonio Andrade, notas fiscais e contratos frios

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Os delatores da JBS entregaram à força-tarefa da Operação Lava Jato os registros de pagamentos feitos em benefício do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preso desde outrubro de 2016, em Curitiba.

São registros da contabilidade da empresa, notas fiscais e contratos frios, a maioria com escritórios de advocacia, e planilha das doações eleitorais feitas na disputa de 2014. Parte delas vinculada ao vice-governador de Minas Gerais e ex-ministro de Agricultura, Antonio Andrade (PMDB). A sigla “EC” das planilhas é de Eduardo Cunha. 

 

Josley Batista, um dos donos da J&F, contou aos procuradores do Ministério Público Federal que conheceu Cunha no gabinete de Toninho Andrade, como é conhecido o atual vice-governador mineiro, quando ele era ministro da Agricultura.

Nessa época, passou a ser cobrado pelo operador de propinas do ex-presidente da Câmara, o doleiro Lúcio Bolonha Funaro – preso desde julho de 2016, em Brasília.

Cunha e Funaro ameaçam fazer delação, o que apavora o Planalto e a cúpula do PMDB.

Os valores pagos a Cunha em 2014, e parte em 2013, foram repassados em maioria por meio de notas e contratos frios, em especial a escritórios de advocacia. Houve ainda repasses de valores em espécie e uma menor parte em doações oficiais ao PMDB e seus candidatos.

Na delação do lobista da J&F no Congresso, Ricardo Saud, foram anexados registros de pagamentos para escritórios como Cunha, Pereira e Advogados Associados, que recebeu R$ 852 mil. O delator entregou a nota fiscal e o contrato de falsos serviços que ampararam o repasse.

 

A Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) acompanha as investigações e vai analisar os casos em que advogados possam ter ajudado a lavar dinheiro de propinas.

Homem-bomba. Um dos pivôs do escândalo que encurralou o presidente Michel Temer (PMDB), Cunha – que teria recebido R$ 5 milhões de propina mesmo depois de preso – cobrou R$ 30 milhões da JBS na disputa pela presidência da Câmara, em 2015, e R$ 20 milhões para aprovar um projeto de lei. Foi o que afirmou Joesley Batista.

“Foi R$ 30 milhões, nós demos R$ 30 (milhões)”, afirmou Joesley. “Ele saiu comprando um monte de deputado Brasil a fora. Para isso que servia esses R$ 30 milhões.”

O Termo 06 da delação de Joesley, referente ao Anexo 8, que trata do tema “Eleição de Eduardo Cunha para a presidência da Câmara dos Deputados”, lista como foram pagos os valores.

R$ 10,9 milhões – Várias notas fiscais emitidas contra a JBS entre 2 de setembro de 2014 a 2 de outubro de 2014; R$ 12 milhões – pagos em dinheiro entregue em várias praças; R$ 5,6 milhões – através de doações oficiais ao PMDB Nacional e vários correligionários de Cunha”, registra o anexo.

Cunha foi eleito presidente da Câmara no primeiro turno, derrotando o candidato do governo Dilma Rousseff, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), por 267 votos a 136.

O empresário disse que Cunha cobrava propinas sempre justificando a necessidade de pagar terceiros. “‘Eu preciso comprar outros deputados, em tese o dinheiro era sempre para uma terceira pessoa.”

Joesley classificou Cunha como um político “incisivo” e “bom de briga”.

Considerando as valores pagos pelo grupo J&F no Ministério da Agricultura, na Caixa e no FI-FGTS, Cunha e Funaro teriam recebido R$ 170 milhões em propinas de Joesley, além de R$ 20 milhões entregues apenas ao ex-presidente da Câmara.

As provas da J&F contra Cunha e a lavanderia de dinheiro usado por seu operador levaram o ex-deputado – já condenado por propinas na Petrobrás – a considerar a possibilidade de uma delação premiada.

Na semana passada, ao ser ouvido pela Polícia Federal, no inquérito que tem Temer como alvo central, Cunha negou ilícitos e disse que gostaria de se pronunciar, após ter acesso integral aos autos.

O vice-governador de Minas tem negado ilicitudes e envolvimento nos fatos narrados pelos delatores. A reportagem não conseguiu falar com o ele neste fin de semana. O espaço está aberto para manifestação.