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Globo monta acampamento no Sertão da PB para gravação de série

Por Flávia Marreiro do El País

 

O sol levará três minutos para atravessar a nuvem e esse é o tempo de que dispõem os atores e figurantes para descansar. Já passam das 15h de sábado no alto do gigantesco morro feito de rocha, o impressionante Lajedo do Pai Mateus, no sertão da Paraíba. Umas 50 pessoas se distribuem sob uma estrutura trançada, como uma caverna porosa. Quando o sol reaparece, a luz pelas frestas recorta formas nos corpos, no chão.

Era o que o diretor José Luiz Villamarim, que se agita no set com a cabeça coberta como um cortador de cana, esperava. A filmagem de Onde nascem os fortes, a próxima série da TV Globo para às 23h, recomeça. A câmera, no ombro do diretor Walter Carvalho, busca um dos protagonistas, interpretado por um dos nomes-fetiche do mais recente cinema de autor, o pernambucano Irandhir Santos. O sol se vai de novo e é preciso esperar a próxima tomada, as próximas tomadas e, por fim, o contraplano, tudo feito por uma única câmera.

A grandiosidade da cenografia, o esmero na rodagem e os nomes envolvidos na produção dão ideia da ambição da Globo na empreitada. Onde nascem os fortes tem tanto a missão de ser o produto premium da dramaturgia da casa, inclusive para tentar disputar o público das séries com o serviço streaming da Globoplay, como de ter fôlego até o julho da Copa do Mundo sem perder o ritmo da narrativa. Para tal, não se economizaram recursos. Para as filmagens foi montado um enorme acampamento descentralizado a menos de 100 km de Campina Grande, na Paraíba. Atores, produção técnica, serviços de alimentação, figurino, tudo foi transferido para hotéis da região, numa sorte de Big Brother Sertão que só acaba de vez em abril, quando estreia a produção de 53 capítulos.

 

“Tem que fazer essa imersão. Isso muda muito. Você sai do seu lugar, do seu habitat. Botar os atores aqui nesse hotel, entender essa luz, a poeira, o calor – de 11h às duas é o cão aqui”, dizia o diretor numa noite de vento forte em dezembro, num dos hotéis-fazenda transformados em QG exclusivo.

É em torno de Villamarim, com o prestígio de quem levou ao ar na Globo os produtos mais elogiados nos últimos anos, como a série Justiça, de 2017, e Amores Roubados, de 2014, que o projeto se estrutura e ganha forma. Na nomenclatura da emissora, ele é o diretor artístico, que trabalha com diretores auxiliares, entre eles Walter Carvalho, diretor de fotografia no cinema de produções como Lavoura Arcaica. Além de poder deslocar as filmagens para fora do Rio por tanto tempo, Villamarim tem autonomia para trazer nomes de fora da casa apenas para a série, incluindo atores vindos do teatro, preparadores de elenco e outros profissionais.

Globo monta acampamento no Sertão da PB para gravação de série
Filmagem de ‘Onde nascem os fortes’, na Paraíba. Globo Estevam Avelar

“Posso ficar seis meses aqui para filmar e tenho que aproveitar. Trabalhar os planos, acreditar em grandes lentes. Se eu subir um pouquinho a câmera, eu tenho o mundo”, empolga-se o diretor, que estreou em 2016 seu primeiro longa, Redemoinho, baseado em O mundo inimigo — Inferno provisório Vol. 2, de Luiz Ruffato.

Dois companheiros de Villamarim em Redemoinho estão com ele em Onde nascem os fortes e são onipresentes em seu discurso: o paraibano Carvalho e o pernambucano George Moura, que é o roteirista da série ao lado de Sérgio Goldenberg. Villamarim, Moura e Carvalho se descrevem e a suas ambições artísticas no coletivo, como se funcionassem como uma tríade de criação: Moura com a palavra, Carvalho com a imagem e Villamarin como síntese. “Esse projeto tem uma atmosfera da paixão. Os atores estão apaixonados porque seus personagens estão apaixonados, mas tudo não pode, tudo não se realiza. Fica essa atmosfera desejosa, afetada”, diz o diretor artístico. George Moura cita como inspiração o poema de seu conterrâneo Carlos Penna Filho, ‘Chopp’, para seguir a toada: “São trinta copos de chopp/são trinta homens sentados/trezentos desejos presos/ trinta mil sonhos frustrados”.

É nesse sertão da falta, do embate entre os que deixaram a terra natal para trás e os que nunca saíram de lá, que a história se desenvolve em torno do desaparecimento de um rapaz após uma briga com o dono do dinheiro local. Há motos e cavalos, poder de fato e de direito, celulares, brega do Recife e grandiloquência das quatro por quatro e da poeira de tudo, e em especial de uma fábrica real de bentonita, usada nas filmagens assim como um povoado de uma fazenda, transformado com delicadeza na cidade cenográfica de Sertão. O perene e atávico líder religioso interpretado por Irandhir Santos conviverá com o filho da terra que se apresentará como Shakira do Sertão (Jesuíta Barbosa no fino figurino com brilho e hot pants feito por Cao Albuquerque) ou com a amante do dono de dinheiro (Maeve Jinkings, de Aquarius e o Som ao Redor), que só veste jeans colado, como se viesse da Feira de Sulanca, o polo de roupas populares de Caruaru, não longe dali.

O céu de Suely foi a grande sacada. É o filme que deu a largada nesse conhecimento sobre o que o sertão tinha virado”, diz Villamarim, citando como referência a obra do Karim Aïnouz, de 2006, que se passa em uma realista Iguatu, no interior do Ceará, com mais motos que vaqueiros.

Não há em Onde nascem os fortes a integralidade do decalque documental de Aïnouz, mas certamente elementos da paisagem pop e complexa que a figurante Lila Conceição, professora e locutora de um programa de rádio religioso na região, reconhece. Depois da gravação no Lajedo do Pai Mateus, ela respondeu o que faz hoje em dia na hora da novela. Depois das 23h não é muito tarde ver TV no sertão? “Depois das 22h eu fico nas redes sociais, mas quando estrear eu vou ver”.

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